A Halitose

O que é, quais as causas e como se diagnostica

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Origem sistémica, nutrição e hábitos

Estas halitoses são também denominadas de halitoses sanguíneas. Os compostos de mau odor, originados em diversos órgãos (ex: fígado e rins) são transportados pela corrente sanguínea até aos pulmões, onde se volatilizam e promovem a halitose. As fontes potenciais das halitoses ditas sanguíneas são algumas doenças sistémicas, transtornos metabólicos, e certos medicamentos e alimentos.

É do conhecimento geral que alguns alimentos podem causar halitose. Os alimentos com maior nível de evidência são o alho, cebola, bebidas alcoólicas, queijos, alimentos gordurosos, azeitonas, ovos, condimentos fortes, maionese, azeite, chocolate, leite, manteiga, natas, salame, presunto, couve lombarda, couve-flor, repolho, brócolos, sardinha e alcachofra. A este respeito, é oportuno distinguir a halitose provocada, por exemplo, por refluxo gastroesofágico que pode ser desencadeada por certos alimentos mas que não tem relação com a via sistémica ou pulmonar.

Após a ingestão alimentar, observa-se que inicialmente os COVs e CSVs originam-se maioritariamente da boca, e só numa fase posterior (cerca de 1 hora depois) os mais predominantes passam a ser os originados no eixo intestino-sangue-pulmão. Foi verificado que alguns alimentos picantes podem provocar halitose e sensação de mau gosto, podendo durar até 72 horas após a sua ingestão. Além do eixo sangue/pulmão, pode também verificar-se um eixo alternativo, o eixo sangue/ saliva, tendo este maiores implicações nas disgeusias (alterações do gosto).
A ingestão de álcool geralmente afecta a halitose, seja por o etanol ser um agente desidratante (e provocar volatilização dos CSVs e COVs intra-orais), seja pelos seus produtos catabólicos libertados pelo pulmão através da corrente sanguínea.

Os hábitos tabágicos também influenciam a halitose. No entanto, a alteração provocada no hálito, de odor característico, normalmente desaparece após um curto período de tempo (2-3 horas). No entanto, é um factor de risco para outras condições que podem causar halitose ou a sensação desta, como a doença periodontal, xerostomia, disgeusias (alterações do gosto), cancro do pulmão e outros.

As doenças hepáticas, como a cirrose, geralmente causam um odor característico. Nestes casos são identificados os compostos sulfuro de hidrogénio, limoneno, ácidos alifáticos, metil-mercaptano, dimetil sulfuro e etanotiol. Os pacientes com doença renal crónica, em hemodiálise e transplantados renais, geralmente têm um hálito urémico. Estudos mais recentes demonstraram a associação entre a halitose e algumas alterações do intestino, como a doença inflamatória intestinal.

A diabetes mellitus pode também resultar em halitose, principalmente devido ao acúmulo de corpos cetónicos no sangue, que são libertados durante a expiração e causam o hálito cetónico característico.

A Trimetilaminúria [doença metabólica caracterizada pela incapacidade de um indivíduo para oxidar e converter trimetilamina (TMA) derivados da dieta em N-óxido de trimetilamina (OTMA) no fígado] é também uma causa de halitose. Os compostos de mau odor (TMA) que circulam no sangue podem ser excretados na saliva, urina, suor e ar expirado. A manifestação desta doença varia de caso para caso, desde uma simples alteração de um nucleótido nos casos menos graves a mutações genéticas nos casos mais graves. Existe uma elevada prevalência na população de algum grau da doença, sem o cheiro a peixe típico, mas outros maus odores característicos do TMA (em diferentes concentrações). A doença pode também provocar com as alterações do gosto e pseudohalitoses.

A hipoglicemia (devido a jejuns prolongados e dietas pobres em hidratos de carbono), os estados febris e a desidratação podem também provocar halitose. No caso do jejum, a formação de compostos de halitose resulta da formação de produtos metabólicos do catabolismo proteico e lipídico, como vias alternativas de gliconeogénese. Ainda assim, é frequente acordar com mau hálito depois de se passar por um longo período de jejum, além de que durante a noite o fluxo salivar diminui. Quando se aumenta o intervalo entre as refeições, aumentam os depósitos de saburra no dorso da língua e diminui o fluxo salivar, bem como ocorrem alterações na sua composição. O mesmo acontece quando aumenta a temperatura corporal (estados febris). O exercício físico muito intenso pode também provocar hipoglicemia. A desidratação tende a diminuir o fluxo salivar e aumenta a saburra lingual.

A intolerância à lactose é outra causa de halitose que tem tido uma maior expressão nos dias de hoje. Desde há algumas décadas que se constatou que algumas mulheres, durante a menstruação, exalam níveis de CSVs acima do normal. A causa deve-se à absorção de CSVs resultantes da acção bacteriana sobre substratos sanguíneos, absorvidos pela mucosa vaginal e libertados no ar expirado.

O uso de medicamentos pode influenciar hálito, seja por administração tópica ou sistémica. Este último caso, mais frequente, ocorre após a ingestão ou perfusão de certos fármacos que são libertados ou que originam outros compostos de mau odor (sendo depois eliminados pelos pulmões). Na sua maioria, são medicamentos constituídos por compostos de enxofre. É o caso do dimetilsulfóxido (DMSO), dissulfiram, nitrito de amilo, dinitrato de isossorbida e alguns medicamentos citotóxicos.

Medicamento Indicação Terapêutica
Disulfiram Alcoolismo crónico
Dimetilsulfóxido Amiloidose
Cisteamina Cistinose
Tosilato de suplatast (anti-alérgico) Asma
Noxitiolina (antimicrobiano tópico) Periodontitis

Outros medicamentos, indirectamente, podem provocar halitose por induzir alterações no ecossistema oral. Um exemplo paradigmático são uma série de fármacos comummente usados pela população, mas que colateralmente influenciam o fluxo salivar (xerostómicos) como as anfetaminas, omeprazol, anticolinérgicos, ondansetron, anti-histamínicos, inibidores selectivos da recaptação da serotonina, tiabendazol, antineoplásicos, didanosina, antidepressivos tricíclicos e levodopa, entre outros. Também uma grande variedade de medicamentos podem induzir outros efeitos adversos como a hiperplasia gengival (fenitoína, ciclosporina, nifedipina, etc.), a língua pilosa, o refluxo gastroesofágico, etc. Também já foi demonstrado que alguns cremes e loções aplicados sobre a pele podem causar alterações no hálito.